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05/06/2009

Entrevista: Equipa da Off7


Podiam apresentar a off7 e os seus objectivos empresariais e sociais?
A off7 é uma empresa nacional, recém-criada com o objectivo de contribuir para que Portugal caminhe rapidamente para uma economia de baixo carbono, ao permitir que qualquer cidadão, empresa ou instituição apague a sua marca no ambiente de forma transparente, simples e precisa.
Pretendemos mostrar que apagar a marca de carbono é, mais que uma necessidade, uma oportunidade para reduzir custos e desenvolver tecnologia inovadora. Isto é tanto verdade para indivíduos – que têm à sua disposição na nossa página e na Calculadora off7® uma série de medidas que lhes permitem reduzir ou eliminar não só as suas emissões mas também a sua factura energética – como para empresas, para as quais o esforço global de combate às alterações climáticas pode também criar novas áreas de negócio.

O que significa “off7”?
Off7, ou offsete, significa anular ou compensar as emissões de carbono que já não podem ser reduzidas apoiando a projectos que evitam emissões (como, por exemplo, a instalação de painéis solares em escolas ou o fabrico de biodiesel a partir de óleos usados).
O offsete é pois a transposição do mecanismo de comércio de emissões do Protocolo de Quioto para um regime voluntário, acessível a qualquer cidadão ou empresa.

O impacto do comércio de emissões nas vidas das empresas ainda é baixo, ou já existe uma séria preocupação a este nível? Existe interesse por parte das empresas para mitigarem as suas emissões?
Embora o conceito seja ainda recente em Portugal, a receptividade das empresas está a superar as nossas melhores expectativas. É também interessante verificar que essa receptividade se reflecte em praticamente todos os departamentos das empresas: as áreas financeiras são atraídas pela redução de custos normalmente associada à redução de emissões; as áreas comerciais interessam-se pelas novas oportunidades de negócio trazidas pela economia de baixo carbono; e as áreas de desenvolvimento e concepção de produtos ou de marketing vêem no offsete um activo capaz de gerar valor acrescentado (poder dizer, por exemplo, que o papel e os químicos utilizados para produzir um livro foram compensados é um factor diferenciador único para uma editora).

A nível pessoal e do cidadão comum este conceito é praticamente desconhecido e a maioria pensa que as emissões são problema do governo ou das empresas. Qual o vosso objectivo a este outro nível?
Mitigar o aquecimento global é naturalmente uma responsabilidade de todos, não nos podemos esquecer que a nível pessoal somos não só responsáveis pelas emissões que directamente produzimos via transportes, equipamentos, etc, mas também pelas que indirectamente influenciamos com o nosso comportamento. Um exemplo: duas empresas oferecem um produto ou serviço indiferenciado (por definição deverão praticar o mesmo preço), mas uma delas compromete-se a anular as suas emissões. Se preferimos o produto ou serviço da empresa que tem práticas menos sustentáveis que incentivo estamos a dar a quem se preocupa com o problema?
Cabe pois a todos abraçar esta causa de forma voluntária e proactiva. Existe de facto ainda muito a fazer nesta área, não só para sensibilizar a opinião pública para o problema, mas também para mostrar que muitas das soluções não só estão ao alcance de todos como ainda podem conduzir a poupanças económicas significativas. Estes são sem dúvida alguns dos nossos objectivos e, conscientes desta necessidade, incluímos no nosso site muita informação acessível e pragmática sobre este tema. A utilização da Calculadora off7® e a recomendação de medidas de redução de emissões específicas para cada caso é gratuita. Finalmente, e para quem quiser ser totalmente neutro em termos de emissões, a Calculadora off7® permite também fazer o offsete das emissões restantes de forma transparente, precisa e rápida.

Qual o papel que as energias renováveis podem ter no desenvolvimento do mercado de comércio de emissões?
Julgamos que as energias renováveis e a eficiência energética são os pilares que permitem sustentar o comércio de emissões. Primeiro, porque permitem reduções significativas e mensuráveis de emissões, em segundo porque contribuem para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras, e em terceiro porque trazem benefícios sociais para as populações locais. Um projecto de energia solar na Índia, por exemplo, levará a uma redução substancial de emissões, permitirá o desenvolvimento local de tecnologia inovadora e criará emprego na região.

A nível mais conceptual poderá este mecanismo servir como verdadeira regulação em que cada actor, seja ele público ou privado, paga pelo seu estilo de vida e esse dinheiro é aplicado em projectos de redução de emissões?
Julgamos que sim. No fundo, este tipo de mecanismos pretende aumentar a transparência da sociedade, essencial para uma correcta alocação de recursos e para que os seus agentes tomem decisões racionais e conscientes sobre o seu estilo de vida. As emissões são um custo – sempre o foram – só que nunca o considerámos para tomar decisões sobre consumo ou produção porque não era internalizado. No fundo é aplicar o princípio do utilizador-pagador que está na base de muitos dos impostos que pagamos: se comprar um automóvel, uma parte do que pago é convertido em impostos e reaplicado na sociedade. E, tal como nos impostos, faz todo o sentido que primeiro reduza o máximo de emissões que conseguir e só depois proceda ao offsete: não vou comprar um automóvel altamente poluente e depois gastar mais no offsete se puder logo comprar um automóvel mais eficiente.
A recente componente ambiental do imposto automóvel poderia aliás ser utilizada em projectos de redução de emissões: os menos eficientes fariam o offsete das restantes emissões. É naturalmente necessário estabelecer prioridades sobre adjudicação de receitas de impostos mas como estamos a falar a um nível conceptual…

A nível mais técnico como se evita a dupla contabilização de emissões? Se o potencial de redução de emissões é vendido, então quem reduz continua a emitir o mesmo que emitia antes. Terão entendido assim os países que “deixam sair” a redução de emissões?
A regulação, precisão e transparência são pontos absolutamente críticos para o sucesso do comércio de emissões, sendo este um tema prioritário para a off7. Por um lado, os projectos que estamos a desenvolver na Índia, China e Rússia, são todos auditados pelas Nações Unidas e pela KPMG, para garantir que mais ninguém a não ser os clientes da off7 tem direitos sobre as reduções geradas. Por outro lado, os nossos cálculos de emissões são baseados no Protocolo GHG (Greenhouse Gas Protocol) e feitos em colaboração com o Instituto Superior Técnico.

De que forma as pessoas podem contribuir para a redução das emissões de GEE?
Temos actualmente à nossa disposição um conjunto de medidas que permitem não só reduções de emissões mas também poupanças na factura energética e nos custos com transportes. O programa operacional lançado pelo Ministério da Economia e Inovação Renováveis na Hora, por exemplo, apresenta um conjunto de iniciativas que poderão levar uma família típica a evitar cerca de 2000kg de CO2 por ano e a gerar receitas com a venda de electricidade à EDP. Outras medidas, como evitar secar roupa na máquina ou não deixar os equipamentos em stand-by, produzem reduções tangíveis de emissões e consumo de electricidade sem qualquer investimento. A off7 disponibiliza uma extensa lista de medidas de redução de emissões aqui.

Portugal vai cumprir os objectivos do Protocolo de Quioto?
Segundo a Resolução de Conselho de Ministros 1/2008, estima-se que Portugal tenha um défice de 2,88 milhões de tonelads de CO2e/ano, isto apesar de ser o terceiro país da União Europeia com maior produção de energia eléctrica a partir de fontes renováveis (43% segundo o último relatório da DGEG). Estas toneladas terão de ser compensadas com a compra de créditos de carbono, efectuada através do Fundo Português de Carbono (FPC), segundo os mecanismos previstos no protocolo de Quioto. Em 2006 o FPC foi dotado de uma verba de 348 M€ para fazer face ao excesso de emissões do país, no entanto, até à data, e considerando já o valor proposto no Orçamento de Estado de 2009, apenas foram atribuídos 107 M€, contra os 213 M€ inicialmente previstos. No entanto a actual situação económica tem feito baixar em muito o preço da tonelada de carbono, o que pode contribuir para facilitar a aquisição dos créditos de carbono necessários para compensar o excesso de emissões.

Após Quioto, o que se pode prever que vai acontecer? Vai surgir um novo protocolo com mecanismos de redução semelhantes ao actual?

A Conferência de Copenhaga, que se realizará no final deste ano, traçará muito provavelmente as linhas do sucessor do Protocolo de Quioto. Discutir-se-ão mecanismos alternativos ao comércio de emissões (tais como os impostos sobre emissões ou mecanismos individuais por sector de actividade a regulação de mais sectores – como a aviação – mas o grande ponto da agenda será o de tentar criar um mecanismo de redução verdadeiramente global e que traduza em acções um esforço concertado de combate ao aquecimento global. Essa preocupação está bem patente nas palavras do Secretário Executivo das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC), Yvo de Boer, quando refere que o sucesso desta conferência depende da articulação com os EUA e da sua capacidade de persuasão em países como a China e a Índia, de forma a obter um compromisso sólido e global. Yvo de Boer estabelece quatro pontos fulcrais para esta cimeira, que deverão servir de alicerces para o tratado que vigorará após Quioto:

-Até onde estão dispostos a ir os países industrializados na limitação das emissões de CO2?
-O que é que os países em desenvolvimento, como a China e a Índia, estão dispostos a fazer para reduzir as suas emissões de CO2?
-Como é que vão ser incluídos nesta batalha e financiados os países em desenvolvimento?
-Quem vai gerir esse dinheiro?

Existe uma grande incerteza sobre os resultados desta conferência. Teme-se também que a actual recessão económica tenha um impacto negativo nestes esforços, mas a recente conferência dos G20 mostrou que os países desenvolvidos, nomeadamente os EUA que ficaram fora do Protocolo de Quioto, continuam empenhados no combate ao aquecimento global e que vêm nestes mecanismos uma forma de estimular a economia.

O desenvolvimento sustentável passa pelo comércio de emissões? Será esta uma ferramenta para este objectivo de sociedade humana?
Julgamos que pagar pelas emissões, seja com o actual sistema de comércio de emissões ou através de outros mecanismos futuros, é um passo incontornável para um desenvolvimento económico, social e ambiental sustentável. Restam poucas dúvidas que as emissões de CO2 e outros GEE têm um custo ambiental, pelo que é preciso associar-lhes um custo financeiro que fomente a criação de uma economia de baixo carbono.

Equipa da off7:

Romeu Gaspar: É sócio fundador da off7. Licenciado em Engenharia Física pelo Instituto Superior Técnico, desenvolveu a sua carreira em consultoria de gestão nas áreas de energias renováveis e mercados de carbono, na Europa e Estados Unidos.

Tiago Fernandes
: É sócio fundador da off7. Tirou a licenciatura em Economia e uma pós-graduação em Gestão de Instituições Financeiras, ambas pelo ISEG. Desenvolveu a sua carreira em banca de investimento e consultoria de gestão, nas áreas de energias renováveis e agribusiness.

Cátia Carias: É sócia fundadora da off7. Tirou a licenciatura em Engenharia Biológica e o mestrado em Engenharia do Ambiente, ambos pelo Instituto Superior Técnico. Desenvolveu a sua carreira em I&D e consultoria de gestão, nas áreas de biotecnologia e energias renováveis.

www.off7.pt


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Última actualização 19/06/2019