28/12/2008
Dossier: Biomassa
Introdução
A palavra biomassa explica quase
imediatamente o seu significado: massa biológica. E do que falamos
quando nos referimos a biomassa: “todos os materiais orgânicos não
fósseis que contém energia química intrínseca”. Porquê energia química?
Todos nos lembramos de aprender na escola o que significa a fotosíntese:
CO2 + H2O + luz + clorofila = CH2O + O2
As
plantas ao receberem luz, água e dióxido de carbono produzem
conjuntamente com a clorofila (substância vegetal) hidratos de carbono
e oxigénio (durante a noite, na ausência de luz passa-se um processo
inverso, em que as plantas consomem oxigénio e libertam dióxido de
carbono). Sendo assim os materiais orgânicos não fósseis que contenham
carbono no seu interior são considerados biomassa: vegetação terrestre
e marinha, árvores, resíduos florestais e agrícolas, resíduos urbanos e
alguns industriais, esgotos sólidos e dejectos animais (estrume).
Energia renovável?
Antes
de responder a esta pergunta, necessitamos de perceber qual a
quantidade de energia que existe na biomassa. Seguindo o raciocínio
anterior, a quantidade de carbono dará essa quantificação. Por cada
mole (grama) de carbono fixado, cerca de 470 KJ são absorvidos.
Que
parte dessa energia provém do Sol? No máximo cerca de 8 a 15%, no
entanto na maioria dos casos não passa de 1%. Se está a começar a ter
dúvidas que a biomassa seja um recurso energético interessante, pense
na quantidade de lixo que faz por ano, bem como na quantidade de
resíduos florestais, na quantidade de estrume produzido pela criação de
animais para abate e por último nas extensões dos campos agrícolas. É
bastante!
Estima-se que o recurso biomassa passível de ser
utilizado seja cerca de 100 vezes maior que as necessidades energéticas
mundiais!
Respondendo então à questão: a biomassa é um recurso
renovável se o seu consumo não for superior à sua reposição. Pense numa
floresta e vá retirando árvores a um ritmo maior do que as repõe, o
recurso não é renovável. Se por outro lado o consumo da matéria
florestal, que liberta CO2 for acompanhado de replantação de nova
matéria florestal, o CO2 libertado vai ser absorvido no crescimento da
árvore, encerrando o ciclo do CO2, sem aumentar a sua concentração na
atmosfera.
Este raciocínio aplicado aos resíduos urbanos, esgotos
sólidos, estrume e alguns resíduos industriais não é válido, a não ser
que a utilização dessa biomassa seja feita em conjunto com a
florestação, o que não é o caso nas cidades, mas pode ser numa quinta.
Qual a solução utilizada? A digestão anaeróbia, sem oxigénio, dos
resíduos orgânicos liberta um gás – biogás – rico em metano, que pode
ser convertido em metanol ou usado nessa forma. Neste caso temos um gás
proveniente de um recurso não reutilizável e com potencial energético
de substituir gases provenientes de compostos fósseis (em algumas
aplicações) como o gás natural. No caso do estrume, o biogás é
libertado imediatamente para a atmosfera, sendo aconselhável o seu
armazenamento, evitando assim o aumento de GEE (gases de efeito estufa)
na atmosfera.
Para acabar este tema, deve-se falar no etanol, que
pode ser obtido a partir da fermentação de algumas culturas agrícolas
como o milho e nos bio-diesel, provenientes do girassol – óleo de
girassol, beterraba – óleo de colza e outros, que podem funcionar como
aditivos à gasolina normal, sem prejudicar o motor e contribuindo para
diminuir a dependência dos combustíveis fósseis.
Tecnologias energéticas
Sem
querer repetir o que apresentamos no nosso site referente à biomassa e
às suas aplicações, abordaremos muito sucintamente o que existe já como
passível de ser utilizado:
- recursos vegetais para aquecimento e produção de energia
em regime combinado como lenha e resíduos florestais como as pinhas. Os
peletes são pequenos concentrados de madeira, altamente energéticos,
que podem ser usados a nível residencial para aquecimento central e de
água sanitárias, como apoio ao solar, por exemplo. Esta solução é já
comercializada na Alemanha, Suíça e Áustria (pelo menos).
- centrais de compostagem (digestão anaeróbia)
– instaladas em aterros para a produção de biogás, podendo este ser
usado na produção de electricidade por um processo semelhante ao da
cogeração com gás natural. O aterro tem de ser tapado, devidamente
isolado e com pequenas “chaminés” onde o biogás é recolhido. Em
Portugal estava projectada uma central deste tipo como projecto piloto
na Valorsul (desconhecemos o estado actual do projecto).
- biodigestores
associados a locais de criação de animais para abate para
aproveitamento de biogás, sendo este transformado na sua forma líquida,
passível de ser usado como combustível. Este caso é de excepcional
utilidade, porque os dejectos animais não precisam de sofrer digestões
anaeróbias para produzir biogás. A libertação deste gás directamente
para a atmosfera implica a libertação de metano, o que é ainda pior que
o CO2.
- culturas energéticas como complemento agrícola
– (óleo de) girassol, colza (beterraba), soja, milho (etanol) entre
outras. Esta possibilidade garante ao agricultor um segundo retorno
financeiro para além do agrícola e pode mesmo salvar o ano quando em
termos agrícolas a colheita for de fraco rendimento. Foi bastante
utilizado no Brasil, levando mesmo à inversão deste conceito com
péssimas consequências. O equilíbrio é sempre a chave do sucesso!
Panorama nacional
Não
temos boas notícias, infelizmente! Pouco ou nada tem sido feito a nível
local e regional para implementar soluções integradas com base nos
recursos e necessidades próprias de cada região. A questão dos resíduos
urbanos tem sido muito discutida nos meios de comunicação, mas ouviu-se
apenas falar na co-incineração, tendo sido referido a reciclagem muito
marginalmente. A co-incineração deve ser vista como último passo,
depois da reciclagem e da eventual produção de biogás. Lembremo-nos que
não temos nenhum recurso fóssil endógeno, mas produzimos toneladas de
lixo por ano. A co-incineração é útil, mas deve ser encarada como parte
de uma estratégia e não como a estratégia.
Possivelmente o único aparente avanço foi o concurso de 15 centrais de produção de energia eléctrica com base na Biomassa.
A
nível das suiniculturas, vacarias, aviários e outras explorações de
animais para abate, existem um grande número de biodigestores, mas
ainda com pouco ou nenhum enquadramento geral dentro da política
energética nacional. Refira-se ainda que os efluentes provenientes de
um biodigestor são estrume de muito melhor qualidade que o estrume
inicial.
A lenha, que representa cerca de 6% do total de fontes
de energia primária a nível nacional, pensa-se ter na realidade um peso
de 12%, já que muito do abate florestal é feito fora dos circuitos
comerciais. Os peletes circulam no nosso mercado, mas a solução híbrida
peletes/solar ou peletes/gás não é usada e mais uma vez tratam-se ainda
de tecnologias marginais e mal conhecidas pelo comum cidadão português.
Estamos
a falar de um recurso abundante no nosso país, que se devidamente
utilizado, geraria empregos, resolveria parte do problema dos resíduos
urbanos, valorizando-os, e diminuiria a nossa dependência de
combustíveis fósseis.
Bibliografia- www.bera1.org (Biomass Energy Research Assiciation)
- www.energyquest.ca.gov
- Collares Pereira, Manuel – 1998, Energias renováveis, a opção inadiável. SPES – Sociedade Portuguesa de Energia Solar.
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